Um dia resolvemos trazer para a luz da consciência as memórias que nos formam, que nos precedem e que não se descolam do nosso corpo no mundo. Foi um ato de coragem! Mas, de que vale a vida sem coragem, não é? Deste impulso, surgiu “Rememorações do Chão”. Uma experiência em dança, que propunha uma conexão de cada bailarino com as memórias de seus lugares.

Memória é algo misteriosamente maravilhoso. Construímos sem cessar, todos os dias, a cada segundo. E como não nos basta o ato, herdamos o que nos precede, as memórias do nosso lugar, do nosso povo… essa ancestralidade que nos conecta ao chão.

Por isso, remorar exige coragem. Afinal, não é só seu. Não está no seu domínio completo. Mas, pode ser tão fantástico colocar luz nesses meandros inconscientes, que não restou nada além do impulso de começar este processo.

Um caminho repleto de símbolos. Somos humanos e somos artistas, simbolizamos para existir. Foi quando iniciamos um travessia que trazia em si um objetivo: dançar a memória do nosso chão.

Escrevendo aqui, me lembrei de Graciliano Ramos em “Grande Sertão: Veredas”: “O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia”. E que travessia temos feito neste momento de isolamento. São tantas questões, que se abre para nós uma grande oportunidade de rememorar para atribuir novos significados.

Mas, e hoje? Quais as memórias desta dança de memórias? Meus amigos bailarinos, que participaram deste processo, me ajudam a responder:

“Vários ninhos nos quais cada ser se fortalece da sua maneira com contatos de apoio diferentes, são punhos, dedos, ísquios, coluna vertebral, vértebra por vértebra, dedos das mãos, pés, tornozelos, joelhos, cabeça que pulsam, suspensos. Reverberam e mostra um corpo sempre novo que se movimenta indo um pouco a mais. Logo consegui ver corpos todos se movendo no seu micro, Ganhando saídas rápidas, com pausas e respirações. Quando se encontram no olhar se mostram fortes e despertos se reconhecendo e se admirando em roda. Dentro dos olhos é possível ver o tempo de cada ser, o tempo único de cada pessoa ali e como o tempo do outro se mostra no corpo de cada bailarino. Vejo conexão, distanciamento e retornos ao bando que sempre quando estão juntos numa potência caminham para o novo.” (Kall Barros)

“Raiz e mobilidade. Pertencimento, ameaça, acuamento, medo do desconhecido e nova apropriação do espaço. Hoje tudo parece fazer mais sentido e está mais presente no meu corpo, como se nunca tivesse parado, mas sempre evoluído em algum lugar aqui dentro. Está enraizado, se move e ainda pertence, se sente ameaçado, tem medo e se apropria de novo!” (Andrea Pereira)

“Um momento no qual nos conectamos com nossas raízes, o chão, a terra, onde entramos e nos conectamos com nossas centros e canais energéticos. Vejo e sinto a importância de estar em si para estar com o outro e estar presente em Comunhão. Existem pausas, pausas para perceber a si mesmo e ao outro. Em feixes vem “o de dentro” em um só pulso. Do Ventre, nascimento, contorna, da força da vida.” (Natália Vianna)

Essa travessia não parou! E “Rememorações do Chão” percorreu várias cidades do Vale do Paraíba, o nosso chão. Em cada uma delas, a memória gerou vida, pertença e presença.

Para estes tempos que urgem transformações, que nossas memórias em dança se conectem às suas. Afinal, conectados estamos todos a esse chão.

Alex Felix
Bailarino da Espaço E. Cia de Dança, produtor de conteúdo e entusiasta do estudo das artes e da semiótica psicanalítica